6 de nov. de 2008

Frustrações

O texto que inaugura este blog não é dos mais felizes. Trata-se de frustrações acadêmicas, frustrações reforçadas pelo fim inesperado de uma pesquisa de um ano: o PIBIC.

Ao fim da pesquisa o aluno deveria apresentar seu trabalho no CONIC, evento que ocorreu entre 3 e 5 de novembro de 2008 nas dependências do CTG na UFPE. Tive a sorte e o privilégio de apresentar meu trabalho diante de colegas de filosofia, de alguns professores e de mais alguns alunos do curso de geografia. A sorte, no entanto, não se entendeu à escolha daqueles que me avaliaram, bem como aos meus colegas, pois estes, selecionados aleatoriamente, eram de outras áreas. Uma seleção infeliz desde que lança ao azar a oportunidade de finalizar a pesquisa, elimina qualquer didática possível e nos relega a um silêncio intragável sobre aquilo que foi, efetivamente, o objeto de nossa pesquisa. Quando critico o fato de que os avaliadores pertenciam a outras áreas, não me posiciono contra uma interdisciplinaridade; ao contrário, a estrutura do encontro parece justamente se direcionar contra ela, pois que parte de uma ingenuidade inacreditável para um evento de iniciação à pesquisa patrocinado pelo CNPq. Não basta misturar trabalhos e esperar que por algum milagre as pessoas comprometidas possam conversar e se envolver num debate construtivo. É preciso, antes, haver um tronco em comum ou um consenso entre as bases sob o risco de quando houver qualquer discussão – se houver – se explore argumentos semelhantes ao de gosto, ou seja, não se discute. Esse é também o motivo pelo qual o tempo permitido é impraticável didaticamente: ao explicar os fundamentos, fugimos dos objetivos da pesquisa a qual se acredita seja um desenvolvimento de uma temática específica a partir deles. Sejamos coerentes: a iniciação à pesquisa científica não possui como meta reinventar fundamentos, mas trabalhar com eles. De um modo geral, ao ter de lidar com essas dificuldades os alunos são coagidos a contradizer aquilo sob o que se erige um programa desse tipo, a ir à contramão de seu compromisso, posto que tudo parece se encaminhar para que outra coisa que não os resultados da pesquisa sejam apresentados. É evidente, entretanto, que a apresentação do CONIC não muda a experiência adquirida em um ano e nem deve influenciar o esforço a ser desprendido, mas o momento da apresentação das contribuições não pode ser encarado como mero cumprimento de formalidades. Por fim, tais comentários surgem de uma frustração pessoal e que embora haja sido fomentada pelo mal-estar geral daqueles que como eu concluíram suas pesquisas, está sujeita á claudicação de, a rigor, não responder por todos os participantes deste evento.

5 comentários:

  1. Pois é Gabi...

    Ao longo de minha graduação, eu me expus a essa situação três vezes, e posso te dizer com certeza que o nível da avaliação decaiu bastante em relação à nossa área. Digo isso porque no primeiro ano que participei, em 2004, a banca era composta apenas por professores do nosso departamento. Por um lado, foi bastante proveitoso, pois tive que me expor para outros professores do departamento, e eles procuravam me arguir a partir de suas linhas de pesquisa, o que tornava o debate bastante proveitoso. Ética, Ontologia, Epistemologia... tudo ali junto. Mas por outro lado, faltava aquela ponte entre nossas pesquisas e as outras áreas do conhecimento (sem mencionar a tão sonhada ponte universidade-sociedade). No Conic seguinte, 2005, a banca de professores fora estendida para outras ciências humanas, incluindo aí a história e as ciências sociais. Apesar dessa "avanço", ainda contávamos com a participação majoritária dos alunos e professores do curso. Quanto aos outros professores examinadores, saí de lá com a impressão de que estavam lá por mera formalidade...
    A decepção maior veio no último encontro, 2006, quando esta banca "ricamente" composta veio me questionar sobre os "fundamentos epistemológicos" da minha pesquisa... Tudo isso veio por conta de uma passagem que utilizei do Karl Marx (muito lido nas universidades e mundo a fora, mas pouco compreendido) para falar sobre as categorias de trabalho, homem e natureza. Pois bem: os ataques vieram somente por esse lado, que nem sequer chegaria aos problemas levantados por mim. Em suma, muito dinheiro empregado e muito tempo aplicado a um evento sem retorno real para as pessoas que participam.
    A coisa positiva nisto tudo é que em momentos como esse as estruturas mais íntimas do sistema universitário ficam expostas, o que nos faz perceber melhor o que acontece além das salas de aula.

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  2. Gabi...

    As minhas experiências com o PIBIC também não foram muito proveitosas, no que diz respeito ao CONIC. Essa coisa de professores de outros departamentos nos avaliarem... O fato dos caras ainda não conseguirem resolver isso é mesmo um absurdo. O problema e que os professores que não são da nossa área nos avaliam sob a ótica dos critérios usados para as exatas. Mas como isso pode ser feito se a nossa produção é fruto de pesquisa bibliográfica e não envolve nenhum tipo de mensuração? É mesmo lamentável. Tenho certeza que, avaliadas corretamente, a produção dos nossos colegas seria uma forte concorrente aos prêmios que estão em jogo. Outro problema é a falta de audiência em nossas apresentações. Ficamos um ano pesquisando e somente alguns poucos amigos fazem questão de nos assistir. O CONIC deveria ser “o acontecimento” entre os estudantes de filosofia, mas não é. Talvez o grande motivo seja uma propaganda mal feita. Mal sabemos o que o nosso colega de PIBIC está pesquisando, imagine o resto da universidade. Acho que no período do CONIC a universidade deveria parar para assistir as apresentações dos alunos; o que não acontece. E tem mais. Não sei esse último como foi, mas me lembro que no meu segundo PIBIC só poderia concorrer a prêmios os estudantes que assistissem no mínimo 75% das apresentações. Mas como as aulas continuavam acontecendo e os professores não liberavam, não podíamos assistir as outras apresentações porque poderíamos levar falta. Não dava pra justificar a falta porque os comprovantes só saiam dois ou três meses depois. Um bom exemplo de organização foi o de uma escola da rede privada que tive o prazer de ser convidado para avaliar alguns trabalhos. Os estudantes, uma vez por ano têm uma espécie de “CONIC” onde eles apresentam o resultado das suas pesquisas. O interessante: todos os trabalhos escritos devem ser entregues dentro das normas da ABNT e as apresentações orais devem ser realizadas em PowerPoint. Se na escola não há professores suficientes em determinadas áreas, professores de outras instituições são convidados para avaliar os trabalhos. Todos devem fazer relatórios das apresentações dos colegas. E o mais incrível são meninos do 1º e 2º ano do Ensino Médio, isto é, garotos de 13 e 14 anos fazendo um trabalho excelente. Acho o CONIC e o PIBIC uma das iniciativas mais brilhantes no incentivo a pesquisa. Porém ainda falta muito para chegarmos num estágio de organização sujeito a menos “equívocos”.

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  3. Pierre e Harim,

    Pois é, como eu disse no texto eu não me posiciono contra uma interdisciplinaridade e acho que em princípio é proveitoso que sejamos avaliados também por pessoas de outras áreas. Ocorre que este ano a escolha foi totalmente aleatória, em minha turma houve avaliadores de economia, geologia e geografia. Eu não sabia que a escolha dos avaliadores já obedeceu outros critérios e acho se deu um passo a frente em chamar pessoas de outras áreas, mas um tropeço em acreditar que apenas isso era suficiente. Quanto à opinião de que eles nos avaliariam usando os mesmo critérios que utilizam para exatas ou para qualquer outra ciência empírica, acredito ser otimista. Digo isso porque em minha avaliação, na de outro colega de filosofia e outras que assisti de história, os avaliadores se detiveram em avaliar o método e o cumprimento dos objetivos e, no entanto, demonstraram que não possuíam o menor conhecimento destes. Cheguei a ser questionada pelo fato de utilizar os livros como matéria de pesquisa, sob a justificativa de que quem perguntava era de outra área e não conseguia entender como isso acontecia! O nosso método de pesquisa é bibliográfico porque trabalhamos sobre pensamentos, mas isso não significa que outras ciências não o façam: não existe pesquisa de qualquer tipo, empírica ou não, que não retire suas contribuições de teorias já existentes. O que isso nos diz é que existe não apenas uma dificuldade em avaliar e prestar-se a ser avaliado por pessoas de áreas bem distintas à nossa, mas também que há um despreparo preocupante por parte dos avaliadores sobre os procedimentos de pesquisa em qualquer área.

    Este ano também houve a exigência de presença a partir de 75%. Achei chato ter que ir avisar aos professores o motivo da minha falta, quando todos deveriam ser avisados e a participação dos outros alunos estimulada. Como infelizmente ocorre muitas vezes em nosso curso, nem alunos nem alguns professores, sabiam do evento.

    Pierre, não sei de que escola você fala, mas a iniciativa, independente da surpresa que possamos ter com a qualidade de certos trabalhos, merece ser parabenizada e provavelmente a qualidade dos trabalhos é resultado de posturas prévias adotadas pela escola.

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  4. O ponto que queria ressaltar é o que Pierre falou sobre a má publicidade.

    Percebo em vários ambientes uma vontade de emancipação na academia, mas as iniciativas não têm uma coordenação forte e a coisa sai meio atrapalhada. Penso que ainda estamos nessa fase, do atrapalho, mas há elementos positivos.

    Não conheço a dinâmica do CONIC e pelo que falei com Gabi e Bruna o tempo de exposição é restrito o suficiente para impedir qualquer apresentação mais didática. Não admira que os avaliadores "peguem no pé" ao questionar os métodos, mesmo porque métodos variam até entre pesquisadores, que dirá entre ramos do conhecimento. Questionar o método da pesquisa é um modo infeliz de sempre ter algo a dizer para não parecer um elemento figurativo na mesa.

    O caráter interdisciplinar permite que as pesquisas transitem, mas sem publicidade anterior sobre os temas dos trabalhos não pode haver comunhão de interesses. Dito de outro modo, como ninguém sabe o que está sendo pesquisado, não há preparação ou interesse prévio, e sem a mínima expectativa a apresentação ganha os contornos de um campeonato de "vale-tudo".

    Um dos primeiros passos para a criação de consenso é conhecer a fala do outro e, só então, se posicionar a respeito. Talvez, para aproveitar este que vejo como um momento em que a academia começa a se mexer (talvez atá para fora dos muros, como Harim mencionou), seja interessante dar melhor visibilidade ao que estamos fazendo e investigar melhor o que ocorre em outros centros. Mesmo porque o CFCH é pequeno o suficiente para um painel desse tipo.

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